Domingo, 4 de Dezembro de 2011

A redonda celebração do Guimarães Jazz (1)

 

 

O simples folhear do livro Guimarães Jazz, 20 anos, lançado no início da edição deste ano pela organização tripartida do evento  -- formada pel' A Oficina, pela Câmara Municipal de Guimarães e pela associação cultural Convívio --,  torna ainda mais viva a constatação de que este festival pode hoje com todo o mérito reivindicar para si a chancela de referência entre os principais e mais representativos festivais congéneres portugueses.

 

Independentemente da relevância atingida em termos de movimentação, enriquecimento e afirmação da agenda cultural e artística de uma cidade e de uma região, cujo alcance em muito ultrapassa a simples realização de duas séries de concertos e se projecta também para além das suas actividades paralelas, o Guimarães Jazz, com os acidentes de percurso e os momentos mais ou menos felizes que todas as realizações desta magnitude conhecem ao longo da sua evolução, pode hoje vangloriar-se dos êxitos que se foram somando ao longo de vinte anos e da comprovação das vantagens de uma descentralização cultural que o Poder Local democrático reivindicou, conquistou e assumiu ao longo das últimas décadas.

 

 

A mera enumeração de muitos dos músicos e grupos indiscutíveis que marcaram a sua presença na história do Guimarães Jazz  -- e que largamente sobrelevam alguns desacertos que perturbaram, em tempos mais recuados, a definição por vezes nebulosa de um muito ansiado e sublinhado "conceito" de festival --  seria de igual modo bastante para comprovar a relevância que atrás se atribuiu a esta realização cultural, hoje também atraindo à cidade-berço fiéis amadores de jazz do país vizinho e mesmo de paragens mais afastadas.

 

Mais uma vez, este ano, entre 10 e 18 de Novembro, o elenco que nos era proposto para o Centro Cultural Vila Flor e outros espaços de convívio pelo Guimarães Jazz parecia prometedor e à altura da redonda celebração, pela representatividade das gerações e diversidade das estéticas, pela importância histórica de alguns vultos presentes e pela afirmação de modernidade de vozes e caminhos novos, mas já consagrados, na actual cena do jazz e da música improvisada.

 

 

É certo que, do papel à realidade, pode ir um passo bem largo.  E novamente se constatou, como em tantas outras realizações jazzísticas  (em concerto ou em disco),  que nem sempre o que parece moderno é novo, nem sempre o que parece clássico é antigo e nem sempre o que foi histórico é eterno.  Tal como se tornou ainda evidente que, independentemente da bondade de conceitos e escolhas, o que em última análise faz um festival de jazz é o desempenho concreto dos músicos, em palco, face ao público.  E é esse desempenho sempre contingente que o crítico acaba por julgar, na sua frágil subjectividade, é certo, mas sopesando a plausível bagagem de um conhecimento acumulado e procurando afirmar-se imune a êxitos fáceis, gostos pessoais e certezas preconcebidas.

 

Permita-se-me então que aqui comece por abordar, com o possível rigor e de forma não necessariamente cronológica, parte do que me pareceu resultar menos feliz ou menos conseguido na edição deste ano do Guimarães Jazz.

 

E referiria, em geral e em primeiro lugar, a contraditória sensação que o escriba sempre sente quando estão em jogo o nome e a credibilidade de personalidades que se habituou a respeitar e a admirar pela sua mais ou menos relevante importância na história do jazz.  No caso presente, se por um lado o multi-instrumentista e compositor Henry Threadgill correspondeu no fundamental ao que se esperaria da sua arte composicional, já Cedar Walton, Roy Haynes e, sobretudo, McCoy Tyner, estiveram (em grau diverso, é certo)  bastante abaixo do que deles em teoria se poderia prever, assim confirmando que o peso da idade não deixa de esbater, as mais das vezes, o estatuto e as qualidades há muito consabidas de uns e de outros.  Caso bem diferente me parece ter sido o de William Parker  (que abordarei e analisarei em próxima oportunidade),  cujo concerto foi para estes olhos e ouvidos o exemplo acabado da negligência e da menor seriedade artística e cultural.

 

 

No caso particular do histórico companheiro de Coltrane, ter-se-á revelado desastrosa a própria escolha do projecto que McCoy Tyner trouxe ao Centro Cultural Vila Flor, a saber:  a revisitação de um álbum que se destacou, pela sua singularidade, no acervo discográfico do grande saxofonista na editora Impulse!  --  Johnny Hartman & John Coltrane (07.03.63), o único em que este teve uma voz por companhia  --, não só porque dele foram evocadas apenas três peças  (Autumn Serenade, Dedicated to You e You Are Too Beautiful),  mas sobretudo porque a constituição do grupo se revelou muito irregular.

 

Em termos de conteúdo, Tyner acabaria por objectivamente menorizar o móbil inspirador do seu concerto, optando antes por originais seus geralmente envoltos na atmosfera "espalhafatosa" de um "exotismo latino" datado, e tornando no plano individual assás penoso desvendar a degradação de uma técnica que empalideceu em definitivo e de um estilo intenso e resoluto de que apenas restam as muitas saudades.  Não menos desarmante é ainda a sensação de que, por vezes, estes grandes nomes parecem ignorar a circunstância de há muito virmos, cá pela Europa, seguindo e estudando com profundidade o fenómeno do jazz, enquanto elevada expressão artística, cultural e humana.

 

 

Quanto à voz, que se esperava constituir especial motivo de interesse da noite, o cantor Jose James  (hoje algo badalado na cena norte-americana),  passou apenas brevemente pelo palco do grande auditório, não conseguindo ultrapassar, nos tiques e na postura de vocalista, a mediania do cantor de charme de outras eras, precisamente ao contrário do que tinha sido um dos homenageados, Johnny Hartman.  Ainda por cima, a secção rítmica do trio de McCoy Tyner foi completada por um Gerald Cannon (contrabaixo)  pouco agregador e influente e por um Joe Farnsworth  (bateria)  apenas cumprindo, burocraticamente, os serviços mínimos, sem qualquer rasgo ou infuência na evolução do concerto.

 

 

A própria situação de Chris Potter  (sax-tenor),  claramente um peso pesado especialmente convidado pelo pianista, mostrou-se desconfortável de todos os pontos de vista, sendo manifesto que o consagrado saxofonista queria tudo menos evidenciar-se ou sobrepor-se à tutela implícita de um histórico junto do qual respeitosa e visivelmente se inclinava, muito menos se sentindo inspirado nas suas intervenções individuais, quer nos poucos e curtos solos que lhe sobraram quer nos parcos comentários melódicos que tentava fazer ao canto, nada estimulante, de Jose James. Enfim, um momento de certo modo patético em todo o festival.

 

 

Menos penosa, apesar de tudo, tinha sido quatro dias antes a actuação do trio de Cedar Walton, um habitual compagnon de route dos maiores vultos do jazz moderno, cuja técnica e versatilidade pianísticas parecem manter-se próximas do que lhe conhecemos.  Mas é também verdade que, em termos de inspiração, o notável pianista esteve bem longe dos seus pergaminhos, nem sempre imperando o bom gosto na escolha  (e, sobretudo, na transfiguração, por vezes desastrada)  de algum do repertório escolhido, em particular no "aligeirar" de conhecidos standards ou mesmo de certos originais "intocáveis" de Strayhorn, como Lush Life, Daydream e Raincheck.  Felizmente, as duas peças finais do concerto  -- Time After Time e Firm Roots --  acabariam por compor, em jeito de despedida, uma noite na qual o veterano David Williams  (contrabaixo)  esteve em primeiríssimo plano e Walter Jones III (bateria),  cumpriu com eficácia certeira, embora sem deslumbrar.

 

 

Fazendo inveja aos mais novos Farnsworth e Jones no que à imaginação e brilhantismo percussivo diz respeito, o consagrado Roy Haynes  (hoje com a bela idade de 85 anos!)  actuara naquele que foi o concerto de abertura do festival com a desenvoltura, o à-vontade e a boa disposição e naturalidade dos grandes mestres, embora naturalmente com bastante menos fulgor do que ainda conseguira apresentar, há meia dúzia de anos, no Estoril Jazz de 2006.

 

 

Tendo-se perfilado no período que medeou entre os anos 50 e os anos 70 do século passado como um dos mais influentes criadores do jazz moderno no que à bateria diz respeito, inovando os padrões técnicos através dos quais passaram a soar bem diferentes os vários dispositivos percussivos ou tornando ainda mais livre e complexo o som e o desenho polirítmico do drum set clássico, Haynes não deixou por mãos alheias o relativo êxito do seu concerto de Guimarães, tendo sido notadas as suas versões de Bud Powell  (Chick Corea),  Fee-Fi-Fo-Fum  (Wayne Shorter)  e Milestone  (Miles Davis)  que lhe deram início, não podendo também esquecer-se o solo absoluto de Martin Begerano  (piano)  noutro clássico de Miles:  Solar.

 

 

Já os restantes dois elementos da Fountain of Youth Band  -- sobretudo o saxofonista Jaleel Shaw que, noutras ocasiões, ouvi em muito melhor forma --  não me soaram particularmente arrebatadores no seu desempenho musical, mostrando-se aliás demasiado "acanhados" e, digamos, "desajustados" aos jogos histriónicos com que Haynes procurou animar e prolongar a noite...

 

 

Seriam, entretanto, Steve Swallow e seu quinteto os protagonistas do primeiro momento alto deste Guimarães Jazz 2011.  Caracterizando a própria evolução do seu concerto por uma grande sofisticação e musicalidade e revelando a todo o momento um fino sentido de humor no recorte dos temas, na configuração dos arranjos e nas próprias citações e estímulos que, sem demasiado acinte, passaram de instrumento para instrumento, Swallow evidenciou mais uma vez como um baixo-eléctrico igual a tantos outros pode soar diferente, solto, legato, delicado, sem que jamais deixe de impor com vigor o irresistível balanço do tempo, quando tal é exigido.

 

                                                                                                                                                                                                                              

 

A seu lado, Carla Bley foi minimal e subtil  (mas sempre inteligente e assertiva, na sua identificação e interacção com o baixista)  nos apontamentos, nas acentuações e nos esparsos comentários harmónicos do seu Hammond, pontuando e alimentando amiúde o fluido e imaginativo desempenho de Chris Cheek  (sax-tenor),  bem moldado e integrado, como sempre nos habituou, às diferentes estéticas e personalidades musicais das formações em que participa.  Mas seria injusto esquecer o contributo essencial ao requinte e homogeneidade do quinteto por parte de Steve Cardenas  (guitarra)  e Jorge Rossy  (bateria):  o primeiro somando as formas e os timbres ajustados ao carácter diversificado das peças ouvidas e ao traçado, por vezes impetuoso, dos seus vários solos;  e o segundo tornando claro  (e recordando-nos)  porque razão, durante anos, o seu estilo percussivo, leve e finamente sincopado tão bem se adaptou, por exemplo, à exigente criatividade de um Brad Mehldau.

 

                                                                                                                                                                                                                               

 

Quase sempre marcadas por um inspirador e desafiante cromatismo harmónico, aqui e ali parecendo evocar Monk  (tal como acontece com frequência nos grupos de Carla Bley),  entre as mais de uma dúzia de curtas peças tocadas pelo quinteto de Steve Swallow, ficaram também na memória From Whom It May Concern, Crowded in the Shower, Unnatural Causes e Name That Tune.

 

 

E para me ficar hoje por aqui, não foi, quanto a mim, dos mais bem sucedidos o habitual concerto co-produzido pelo festival com a editora independente portuguesa TOAP - Tone of a Pitch e que sempre tem constituído uma oportunidade para o encontro, emulação e troca de experiências entre músicos portugueses e estrangeiros.  Não porque fossem destituídos de qualidade e invenção alguns exigentes originais tocados pelo quinteto, dos quais destaco, a título de exemplo, A Pattern Forms  (Nate Radley),  Recurring Glances  (Óscar Graça)  ou El Otro Mundo  (Demian Cabaud).  Mas porque terá perpassado por esta actuação menos empolgante uma atmosfera quase sempre sombria e demasiado triste que o próprio enunciado temático de algumas peças parecia não prenunciar.

 

                                                                                                                                                                                                                                

 

Considerando, aliás, que do quinteto fazem parte músicos que me habituei a admirar, como o já referido Demian Cabaud  (contrabaixo)  ou ainda Jochen Rueckert (bateria)  e que à minha lista de músicos a ter sob escuta passaram a juntar-se, sem dúvida, Radley  (guitarra)  e, sobretudo, Graça  (piano),  belíssimas surpresas para os meus ouvidos, é provável que um certo tom soturno tivesse ficado  a dever-se  (com toda a injustiça que possa haver neste apontar de dedo)  ao estilo tão pessoal da pianista Akiko Pavolka  (Fender Rhodes),  sobretudo pelo uso baço e demasiado uniforme do seu singular timbre de voz.

________________________________________

 

Fotos do Centro Cultural Vila Flor:  Manuel Jorge Veloso

Fotos dos concerto:  cortesia de  A Oficina e  © João Peixoto

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Na próxima crónica:  análise aos concertos de Ralph Alessi, Henry Threadgill, Big Band da ESMAE e William Parker





Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 12:19
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